Kleber em um primeiro momento nos situa em um Brasil de cultura comum, um Brasil de Trapalhões, Chacrinha, Caetano, Bethânia e Valdik Soriano, para logo em seguida, nos colocar em dúvida em relação a nossa própria memória.
Em um Brasil, coberto por um simulacro de país, que inventa sua própria história nos jornais, a fim de abafar a realidade, o sentimento incutido a seus cidadãos, é o de serem exilados em seu próprio país, tomados pelo sentimento de paranóia e síndrome de perseguição.
A La Ursa, figura que costuma ser uma brincadeira de carnavalescos, aqui ela torna-se uma personagem aberrante que parece carregar uma figura oculta debaixo de sua fantasia.
“O agente secreto” do título, embora possa remeter a um filme hollywoodiano sobre espionagem, aqui se apresenta por um agente histórico, que em segredo, tenta descobrir a própria história, enquanto resiste a esquizofrenia histórica que assola seu país a partir de sua estrutura de poder vigente.
Se em suas outras obras, Kleber parecia partir das perspectiva de uma classe média branca, aqui através de sua montagem fragmentada, torna seu público uma personagem que assim como em seus filmes anteriores, passa a questionar suas origens, suas memórias e aquilo que julga por conhecimento histórico.
Em resumo, se Glauber fez o cinema da estética da fome, Kleber Mendonça, faz o cinema do exilado e seu sentimento de perda de identidade, que ao mesmo tempo em busca sua própria história, abraça sua natureza contraditória e antropofagica, como forma de afirmação da vida que ele tem.
