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Vitchenzo Manfron Caliari Conto

Paranismo fatal di Santa

Curitiba, 31 de julho de 1928

Ao meu querido irmão,

Despertei com a vontade de plantar uma árvore, mas árvore não posso plantar. Me digas, irmão, que devo fazer?

Antes que me esqueça, obviamente, pergunto-lhe com certo desamparo sobre o que fazer com esta neve incessante; e deduzo eu, segundo meus devaneios de máximas literárias, que ela seja eterna. Deve estar gozando da boa temperatura aí de cima e lendo minhas cômicas cartas. O frio está rigoroso e gostaria do privilégio de me aquecer em boa companhia, de estar reunido com toda a família e tomando vinho convosco. Disse-lhe na última carta, conforme seu próprio pedido, que seria mais breve e menos formal, procurando relatar mais do dia a dia e parafrasear menos romancistas, poetas e filósofos.

Juro que citaria alguma recordação da casa dos mortos neste instante, porém me contive…

Primeiramente, isso de fato é bom recordar e, obviamente, não que você não saiba, amanhã é meu aniversário. O que fazer em própria companhia neste bairro de colonos?

Veja que estou procurando saber o que fazer, sempre. Mas aí vai meu relato curto do dia de hoje. O que se faz um dia antes do aniversário?

Me abriguei dentro da casa construída por Gechele devido ao frio intenso e pela dificuldade de locomoção sobre a neve. Aceitei um pouco de vinho, mas não tive papel algum nas conversas que decorreram pela manhã. João Turin está dando o que falar. Minha cabeça estava com os pobres animaizinhos da nossa propriedade. Acredite, meu irmão, eles sentem sua falta. Antes de almoçar, rezei na igreja e lá ponderei sobre a vida, sobre o frio como castigo, sobre o futuro deste pedacinho de terra; e rezei por sua alma e dos nossos pais, que estão bem sob seus cuidados.

Voltando para casa vi muitas crianças erguerem bonecos de neve e, secretamente, fiz um próprio para mim no jardim. Ele simboliza com alegria o que há de mais pacificamente gélido em um inverno como este, que possivelmente não existirá novamente! Meu irmão, como gostaria de possuir aquela invenção que registra o que nossos olhos veem, a máquina que captura o presente para guardarmos em gavetas e passarmos aos filhos e netos. Vi uma no Centro. Gostaria que possuísse um registro do meu boneco, pois o fiz à minha imagem e semelhança. Me contentei demasiadamente com o resultado que esqueci meu chapéu sobre a cabeça de gelo dele.

Passei da metade ao fim da tarde lendo os russos pelo conforto nos dias frios, me sinto mais imerso nas páginas trágicas que eles escrevem. Assim que a noite chegou, fiz chá, obviamente. Desde então estive escrevendo incansavelmente minha ficção. Será que entrarei como nome para algum movimento literário do Paraná? Sonho meu quando durmo, nada ainda sujeito à interpretação; e devaneio em realidade, obviamente.

Meu irmão, continuo a rabiscar as palavras sem parar contigo agora, da ficção ao afeto familiar. Caminharei lá fora em puro êxtase contemplando a branquidão da nevasca. Loucura minha, eu sei. Depois me contentarei com vinho antes de dormir.

Pena não estar convosco, sentirei vossa falta quando raiar o sol na manhã de primeiro de agosto!

Seu fratellino!

Curitiba, 01 de agosto de 1928.

ao meu querido irmão,

estou com febre, meu irmão, estou louco, meu irmão, doente, meu irmão, escrevendo para você sem a devida atenção, com dores, com fraqueza, com profunda culpa pela tolice da noite anterior, meu irmão, hoje é meu aniversário. escrevo deitado na cama mesmo, sozinho em casa, me esforcei muito para tratar das vacas e dar o que de comer aos porcos na neve com lama e os xinguei também e expulsei os demônios que podia. tive vontade de pintar um quadro também, mas não tenho telas e nem tinta. eu corri para fora na noite de ontem, o vento me atravessou, estava com pouca roupa, fui tomado de alegria e o intuito era receber o “parabéns” do sol, meu irmão, como sinto falta do meu pai nesta data e de você e da nossa mãe, queria vocês aqui comigo ou eu por aí convosco, não bebi vinho quando retornei para dentro, oh, meu irmão, fiquei rodeando pelo jardim e vi os animais falarem, não estou louco, meu irmão, eu ouvi os sinos da nossa igreja, alguns bons vizinhos passaram me reverenciando mesmo enquanto corriam, é o que eu tenho para lhe dizer de normal. eu cometi um assassinato, meu irmão, meus pais que me ouvem e os santos que me regem, sim, os santos, eu vos imploro, por favor, eu matei, matei com ódio e com vontade, não sou nada neste buraco, não consegui produzir nada, ouço nomes dos relevantes artistas e não creio que atingirei o mesmo patamar, isso aqui não é para mim. meu irmão, riram de mim! o boneco de neve riu de mim! eu havia deixado um punhado de pinhão sobre a chapa do fogão à lenha. sabe como corrói estar sozinho em uma data como hoje? oh, meu irmão, voltando ao homicídio que cometi, ou melhor, legítima defesa, eu peguei o revólver de nosso pai escondido abaixo da pia da cozinha, eu sei, não deveria expor isso pois foi você que me contou em segredo, mas enfim, carreguei ele com um pinhão, sai para fora novamente, gatilho com suor escorrendo, sabe como é matar alguém? atirei como os cowboys do oeste lá de cima há dezenas de anos atrás e acertei o alvo, o boneco de neve teve o crânio perfurado e seu corpo despencou de costas. não lembro se a neve ficou manchada. na região de tanta ventania eu me senti o maior dos artistas, o que consumiu vingança em nova obra, não sei explicar, eu criei uma obra e a matei em seguida, compreende? o que modelei com minhas mãos riu de seu criador, me senti um pai frustrado e não posso ser eu um alvo, então fiz o que fiz, meu irmão e queridos pais, eu estou muito mal e perdoem-me a péssima escrita e nada formal ou respeitosa. voltei agora para a cama, estou terrivelmente mal, passaram-se horas desde que escrevi esta última linha, estou sem forças, não pensei no meu aniversário hoje e não gostaria que voltassem para cá com uma imagem fúnebre de mim, se aqui não estiver, sabe onde estará seu fratellino, vosso filho mais novo e aspirante aos céus, ao que as mãos deste mortal não podem tocar aqui e

Aqui termina a última carta de meu querido fratellino.

Decidi colocar os últimos pontos por ele, que tanto amava escrever. Assim, creio que seja justo aqui informar que adoeceu no mesmo dia e o encontramos sem vida poucos dias depois ao voltamos com urgência da nossa viagem.

Saudades da família.

Fim de agosto de 1928.

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A Parte Mal Dita
Vitchenzo Manfron Caliari
Yuri Fernandes Machado

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