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Vitchenzo Manfron Caliari Conto

Prometeu Cremado

Percival morreu no litoral.
Jorge se afogou durante o funeral.

Maldito seja teu nome, Percival! Não ouvistes os maus agouros que ditaram os infortúnios de tempestade? Não pudestes manter a tenra idade retida para no futuro desabrochar? Não sentiras pena da donzela que transformou em viúva? Como tudo aconteceu?

Maria chorou, chorou até seu pulso cair frio sobre a terra. Seu peito dobrava as batidas do coração, era possível ouvi-lo, mas a pobre esposa fora despida de vitalidade. Jorrava lágrimas à maré que se estendia, elas camuflavam uma gota às águas advindas do profundo e inexplorado firmamento.

Velas prontas, remamos aos fatos.

“O que diabos aconteceu?”, um curioso se aproximou naquele fatídico dia.

“O criador de mitos foi encontrado”, disse Eduardo, um amigo próximo.

“Foi desacorrentado da mortalidade”, sussurrou João, um amigo um tanto mais próximo.

“Vim de Curitiba às pressas e não posso suportar a presença de um tolo pescador!”, exclamou Jorge furioso. “Fora daqui!”

Expulsou com as mãos o velho curioso e xingou a população que da rua fitava a costa.

“Céus! Perdemos uma alma juvenil, demasiadamente juvenil com tanto para mostrar ao mundo!”, João chorou.

Jorge não quis demonstrar exagerada fragilidade e enxugou as rápidas lágrimas de tristeza que brotaram. Abraçou Eduardo e conectou seus olhos de luto aos dele.

“Meu bom amigo, me diga o que houve, pelo que há de mais sagrado, pelo que podemos suportar neste mundo que mais traz tragédias do que alegria...”

Eduardo chorou por minutos, mas suspirando, relatou a descoberta do falecido poeta.

“Que Deus o receba em grande alegria e que Percival nos olhe e reze por nossas tristes almas lá de cima! Jamais apagarei da memória o que vi mais cedo…”

“Ele enxergava a religião como serva da tirania, mas continue…”, incentivou Jorge com incômodo ao nome do Criador e João aguçou os ouvidos.

Eduardo se calou. Era amigo do poeta e havia esquecido do seu fervoroso ateísmo?

O dia nublado intensificava o frio na praia de vital testemunho. Jorge abotoou três dos quatro botões de seu casaco.

“Tens três botões apenas”, notou João em voz alta, o que ele mesmo esperava ser um íntimo comentário.

Jorge passou os dedos pelo primeiro, o segundo não estava lá e então seguiu para o terceiro e quarto.

“Meu botão caiu e com ele rezei uma missa aos mendigos.”

Eduardo segurou uma risada esquecendo até mesmo do amigo morto.

“Voltemos ao ocorrido”, fitou o narrador novamente. “Prossiga, Eduardo.”

“A virada do século não poderia ser mais marcante!”, exclamou com os braços ao alto. “Morreu com a Lira dos Vinte Anos em seu bolso.”

“Aos fatos com a cabeça pensando, Eduardo!”, cravou as duas mãos nos ombros do conhecido. “Não naufrague com ele...”

“Vamos ali naquelas pedras, por favor.”

Lá, com as ondas batendo aos pés, eles se sentaram. A tarde de inverno no litoral era sempre incomum. Tudo que respira se emudece, o curso de acordar, labutar e dormir torna-se exclusivo da movimentação no fundo do mar. Os peixes, as algas, os polvos e caranguejos realizam estrofes. A musicalidade destes seres é inatingível e o calor inteiramente próprio. Essa onda de sentimento aconchegante não atinge os humanos na superfície, estes só querem matar. Os humanos com dote romântico apodrecem em união ao musgo das pedras que se aglomeram como caminho para ilhas.

“Demorei dias para chegar aqui”, Jorge cortou o silêncio. “Percival estava desaparecido há dez dias. Me correspondi com Maria já no segundo dia como se fosse da família.”

Eduardo tremia ao se lembrar e João conteve com paixão o amigo em fortes traumas da memória.

“Maria deve ter ficado arrasada quando soube que seu amado havia desaparecido”, João se manifestou.

“Sim, no terceiro dos dias de tempestade fui até a casa da família e busquei consolá-la, a aqueci em meus braços e na cama durante fria noite”, Jorge lembrou com afeição. “Como o amor livre de Percival me ensinou.”

Recobrando forças, Eduardo prosseguiu.

“Ele estava podre, Jorge, podre como um animal abatido por prazer em seu lar, em decomposição avançada”, soluçou.

“Você o encontrou?”

“Não.”

“Quem então foi o desafortunado a ver isso?”, inquiriu.

“Os pescadores o encontraram exatamente aqui...”, e sua cabeça pendeu para baixo.

Jorge pensou que era por isso que ali fedia. Seu estômago revirou por pisar sobre o local que reterá os restos do desmistificador.

“E o enterraram ali onde há um aglomerado de conchas.”

As cabeças se direcionaram ao tumuluzinho solitário. Por mais simples que fosse, era poeticamente bonito, um descanso adornado merecido para o mensageiro crítico que naufragou.

“Parti com ele em praia pontal ao norte, cada um em sua embarcação”, Eduardo iniciou o relato em sua origem. “O cavalo e o demônio do pesadelo assombrariam nossa jornada, me escreveu Maria, pois tempestade esticaria sua mão gigante e escura sobre nossa garganta... E assim aconteceu, embora eu tenha escapado. Me afastei à vista de Percival e gritava em vão por seu nome, os arautos estavam longe na praia. Em alto mar com ilha distante senti que seria salvo, mas o barco do poeta da lua virou um ponto e a fúria de Zeus caiu retumbante no mar. Como mortal que desafia o sagrado, me escondi no barco, os trovões me assustaram, pressenti a perda da minha alma. Um sonho de ópio transtornado foi aquela noite. Adormeci, ou melhor, apaguei com desmaio de sorte para não suportar conscientemente a fúria do mar.”

Petrificados estavam João e Jorge.

“Não deveria ter morrido com a visão de negras nuvens predadoras”, Jorge se emocionou. “A mais bela lembrança que guardarei dele é a companhia que me fez quando observamos brancos pássaros entre o céu azul diante de um lago e mesclando sua cor sobre pico quase branco de um monte... Havia uma música sobrenatural em andamento, um profundo sentimento que expelia leveza e amor.”

“Agora ali jaz ele, no duro inverno com o corpo gelado e solitário”, João se levantou e cobriu a face com ambas as mãos.

“Não chores”, Jorge se compadeceu. “Vamos queimá-lo, aquecer a chama de poeta com brasas de calor amável, evaporar sua luz às estrelas e reter os restos como relíquias para o mundo que o pariu.”

E assim ele caminhou até o túmulo de Percival enquanto os dois companheiros o seguiam em perplexidade com a ideia.

“Do seu leito conchas ao universo”, se agachou diante da cruz de madeira e afastou as conchinhas com as mãos. “Uma picareta! Rápido!”

“Mas agora? Meu bom Deus! Está louco!”, gritou Eduardo.

João revigorou-se com a beleza da homenagem.

“Agora! Eduardo, vá buscar uma picareta para Jorge, agora! Agora, vamos!”, e o empurrou em direção à rua, donde os curiosos e pescadores passaram a se movimentar quando ouviram a estridente necessidade.

Eduardo foi-se para a multidão que gostaria de ajudar.

Maria veio chorosa aos braços de João.

“Aqui está ele! Aqui está ele, meu amor de cristal!”, as lágrimas caíram sobre Jorge agachado.

Suas gotas penetraram como espinhos suas costas até um coração lamurioso.

“Maria...”, Jorge a beijou em torrente de lágrimas acompanhando a viúva; e não pôde resistir a sutileza da tristeza.

“Tragam ele de volta! Por favor!”, gritou e pisou sobre as conchas, o que espantou João. “Encham o corpo dele de eletricidade! Ele voltará! Voltará consciente no mundo! Meu companheiro dos experimentos de burlar a morte! Meu amante galvanizado!”

Jorge a segurou firme com os braços, o que exigiu muita força e então foi-se soltando aos poucos até acalmá-la; e levou mais de uma dezena de minutos.

“Eis o que desejas! Mas digo de antemão que não concordo com tua realização, despertarás um novo pesadelo oportuno ao mau”, Eduardo entregou a picareta nas mãos do poeta mais aclamado no círculo deles.

Estufando o peito e com a ferramenta bem ajustada, desferiu o primeiro golpe contra a cova bem sedimentada de areia.

“Cuidado!”, soluçou Maria em prantos e desviando os olhos.

Depois de mais três golpes contra o túmulo, nada.

“Enterraram fundo”, João observou.

“Muito fundo…”, Eduardo complementou.

Tuf… tuf… na difícil areia… tuf… crac!

“Ah…”, soltou a viúva, estremecendo.

Levemente puxou a picareta e ela não cedeu. Com mais força, Jorge soltou a ponta de onde estava cravada.

“Encontrei”, e olhou melhor o buraco.

Náusea.

Entre os grãos, encontrou o que era a cabeça de Percival, os fios desgrenhados e apenas a testa e parte dos olhos visíveis; e mais visível ainda era o líquido que escorria saindo do buraco no crânio. A investida entrou fundo no cérebro, era possível enxergar uma cor apagada que um dia fora rosada. A gosma brilhava e Jorge perdeu as forças, bem como os sentidos.

“Eu termino, sente-se com Maria”, Eduardo retirou a ferramenta de sua trêmula mão direita e se pôs a terminar o serviço.

Minutos depois de incessante labuta, a cova estava aberta.

João e o novo escavador retiraram o cadáver.

“Deus, como fede!”, exclamou o primeiro, segurando pelos pés.

“Ele se fora há muito tempo...”, desapontado disse o segundo, ao ver os restos.

Enquanto agonizavam, ao partir para buscar a ferramenta, Eduardo comunicara aos curiosos para reunirem troncos e gravetos, o máximo de madeira que pudessem encontrar. A multidão estava realizando um excelente trabalho, digno e com todo coração pelo poeta ousadamente azarado, que tombou contra as rimas dos raios.

Dos prazeres bucólicos Percival seguiu a fina veia aquática que o levou ao coração do mar. A alma da vida marítima tingiu seu corpo de mortal. Sem vida, tornara-se uma estrela.

“Ascenderás em metafísica, ode aos ensinamentos antigos, ode a ti, meu louco ocultista!”, Jorge ajudou a depositarem o corpo de Percival sobre folhas de coqueiros e não de relva.

Maria se ajoelhou diante do marido para examinar o corpo sujo.

“Podemos lavar sua maculação?”, sugeriu João.

“Ei, você com o balde! Você mesmo! Traga água para lavarmos o moribundo, por favor!”, ordenou Eduardo. “Você também!”, apontou para outro. “Por favor...”

Pausa. Pausa em tudo que se ouvia, silêncio completo.

Exceto pelo mar, o único som era de choro, choro de uma alma amada abandonada.

Trouxeram água e banharam o estendido e rígido homem desacordado.

“Passamos panos secos nele?”, sugeriu mais uma vez, desta vez com voz leve e com receio de perturbar a ordem funerária.

“Panos! Panos! Panos! Já!”, gritou com todo o peito Jorge ao levantar-se de repente.

O choro de Maria tornara-se estridente com o corpo de seu salvador em seus braços.

“Meu amor…”, e assim comoveu como chocou de forma blasfêmica as pessoas ao redor, pois beijou o resto de carne que um dia foram os doces lábios de Percival.

Dura para João fora a batalha de aguentar o odor assim que o desenterraram, então vomitou ao presenciar de perto a cena do beijo.

“Maria...”, Jorge colocou a mão no ombro dela enquanto a esposa do poeta afagava seus fios de cabelo. “É demais, por favor...”

Ela cessou o choro e por instantes seu rosto se iluminou, equiparando-se à face que exibia durante os mais prazerosos jantares e reuniões literárias ao lado de seu eterno companheiro, a quem tanto arriscou sua própria vida. Lampejos como estes do passado atingiram Jorge e seu carinho profundo remontou aos dias chuvosos de verão, às competições de contos de horror, às extravagâncias burguesas, ao uso de ópio e doses de absinto na companhia da família e às tantas memórias antes destas e às anteriores antes destas últimas; ele mesmo acreditava que desde sua origem a vida de poeta se entrelaçaria com vivas encarnações de poesia como Percival e Maria.

O esquelético rosto sereno continuava a receber carinho, os dedos femininos corriam pela protuberância cadavérica, pelas imperfeições e deformações da escura pele, sobre os fundos olhos e até por cima do úmido buraco com o cérebro reluzente. Sua mão desceu pelo amado, passou pelos braços, pelo peito, pela barriga e chegou à virilha, uma última vez agarrou sua região íntima e gemeu. Maria apertava seus seios com a mão esquerda e, de olhos fechados como se ninguém estivesse por perto, gemeu pacificamente. A mão da libertina desceu então por seu ventre e dentro da saia, tocando com os dedos seus lábios de baixo. Ela apertava com a direita o que um dia fora o cobiçado órgão do marido. Subitamente parou.

Abriu os olhos e como se nada tivesse acontecido, emudeceu completamente e se levantou.

“Panos, por favor”, exigiu friamente. “Muito obrigada”, disse a João, que passara um pano das mãos de Eduardo às suas. “Me dê todos! Eu mesma farei isso! Sozinha!”, seus olhos acenderam.

“Fique à vontade”, Eduardo passou diretamente à viúva.

Sua perfeição tomou quase meia hora e enquanto deixaram Maria fazer seu trabalho cauteloso, os três ajudaram a erguer a pira de madeira para cremarem Percival. No meio do processo, não deixaram de comentar o que ela acabara de fazer em público e como isso iria repercutir até o Centro da capital.

As pessoas abriram passagem.

“Eis um padre para conduzir a alma pecadora do poeta ateu!”, anunciaram.

Empurrando todos pela frente, Jorge entrou em estado de fúria.

“Para os infernos! Vocês e o padre! Suma daqui!”, e enxotou para a rua o pobre velho pregador que arrastaram da igreja local para o frio beira-mar. Soube-se que poucos dias depois, devido ao vento cortante e rigoroso inverno, aquele padrezinho adquiriu pneumonia e morreu.

“A pira está pronta!”, gritou Eduardo.

“Que o funeral se inicie! Honremos Percival!”, Jorge exclamou com notável emoção.

Não houve um sequer humano que não derramara uma lágrima desde que levantaram o que era um dia Percival. Primeiro se emocionaram com Maria, agora perpetuamente solitária esposa, depois com os três amigos próximos que se uniram à viúva para carregarem o companheiro à pira, que o aguardava para trazer calor.

Atearam fogo e o início da sua transição à imortalidade acendeu. Enfim, desacorrentado das amarras que este mundo impõe! O fogo se espalhou rapidamente e Jorge lembraria pelo resto da sua vida do cérebro de Percival borbulhando dentro do seu crânio como água em um caldeirão fervente. Maria acreditava que alguma parte do marido seria imaculada mesmo se o cadáver mortal fosse tocado pelas mãos do fogo. Eduardo e João relembravam das gargalhadas e do temperamento difícil do amigo dias e dias antes; inclusive da teimosia de erguer velas quando alertavam sobre a tempestade.

A comoção perdurou desde que chama atingira seu ponto mais alto até o momento em que o cadáver ficou tostado com as chamas prestes a cessar. Quando a luminosidade da pira estava em seu esplendor, Jorge soltou toda a angústia com um doloroso grito e correu até o mar, caminhou forçando a perna contra as ondas e se afogou. Maria entrou em estado de choque e João correu ao seu resgate. Trouxeram o louco e perigoso poeta o arrastando pela areia. Pobre desacordado!

“Precisaremos de mais fogo!”, ordenou Eduardo forçando a voz. “O vento se intensificou!”

“Eduardo, por favor!”, Maria se aproximou. “Traga o coração de meu amado! O conservarei enquanto durarem os dias de minha família!”

Primeiramente hesitou, porém recebeu a sinceridade dos olhos dela em seu próprio coração.

“Posso fazer isso.”

E diante da pira quente sem chamas, puxou de seu cinto um punhal e abriu o peito chamuscado de Percival. Curiosamente, o que tem intrigado diversos estudiosos por anos, o coração estava intacto, puro e dócil de se observar. Cortou as veias e segurou firme a fonte de vida de todo ser dotado de poesia. Sem dizer palavra, bastou para si mesmo estender a vitalidade de Percival à sua amada.

“Obrigada, Eduardo… Seu gesto irá ecoar pela história”, lavou o coração com lágrimas de cristal e o apertou contra seu peito.

Acenderam novamente o amontoado de madeira e ficaram em pé observando o corpo de Percival partir para a Eternidade até virar cinzas. Deixou seu coração para manter-se presente e com a amada. Aos amigos, em algum lugar além da compreensão, estaria os observando e enviando a essência bela de sua poesia como presente a eles; uma extensão de seu espírito aos punhos dos poetas que transmitiram mais composições. Percival morreu no litoral. João e Eduardo seguiram suas vidas e mantiveram contato com Maria até seu fim. Jorge morreu dois anos depois por falha dos médicos em curar sua gripe, o que foi um total absurdo; e seu cérebro estava podre quando fizeram a autópsia, podre como o de Percival. Escritos inéditos foram queimados por decisões imprudentes e, como inúmeros escritores, uma parcela considerável do mundo hoje nunca ouviu falar deles e nunca ouvirá.

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A Parte Mal Dita
Vitchenzo Manfron Caliari
Yuri Fernandes Machado

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