Para além de sua linguagem de Sci-fi 50tista que envolve uma série de elementos de quadrinhos de guerra e ficção científica que lhe eram contemporâneos, em seu subtexto, O Eternauta relaciona-se (como não poderia ser diferente) com o contexto histórico de seu país que havia recém passado por um golpe ditatorial que embora no momento de sua publicação, já tivesse arrefecido para a democracia, deixara feridas profundas nos cidadãos argentinos (feridas estas que seriam reabertas nos sucessivos golpes militares sofridos pelo país nos anos seguintes, sendo estes ainda mais duros).
O Eternauta, ao longo de sua construção, revela-se para além de uma primeira impressão, como uma história que rompe com o paradigma do herói individual, tão comum ao imaginário das histórias estadunidenses, e constrói para si, o herói coletivo, composto aqui, pelo grupo de sobreviventes, que mesmo diante das adversidades que muitas vezes parecem possuir um tom fatalista e incontornável, resistem em prol do coletivo e priorizam o mutualismo em detrimento dos interesses e caprichos individuais.
Em suma, Oesterheld e Lopez, constroem uma história tipicamente latino americana, sobre traumas coletivos, invasões, espoliações e apropriações, mas que mesmo contudo, a partir da força de seu povo, preserva uma vida que merece ser vida, rimando com outras obras latinas como o grandioso Cem Anos de Solidão de Gabo, e outras narrativas de Borges, Cortázar e etc.
Infelizmente, devido a seu caráter militante e suas ideias políticas revolucionárias, Oesterheld (e suas filhas), enquanto escrevia a segunda parte de O Eternauta, história essa com uma conotação política muito mais contundente e clara do que sua história original, tendo contornos de luta armada, foram vítimas, dentre tantas outras, da sanguinária ditadura militar argentina, responsável por seu desaparecimento não esclarecido completamente até hoje.
Entretanto, apesar das sucessivas tentativas de apagar sua memória, Oesterheld continua sendo lido até hoje, não só por O Eternauta, mas também por obras consagradas como Mort Cinder. Oesterheld pode ter morrido como homem, mas suas ideias e suas histórias, tal como Juan Salvo, nosso Eternauta herói coletivo, resistem até hoje.
