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Yuri Fernandes Machado — Quarta Literatura #004 — 16/07/2026

O Eternauta

Oesterheld & Solano López
Publicado em 1957 e finalizado em 1959, O Eternauta, publicado originalmente na revista Hora Cero Semanal, é considerado um dos maiores marcos da indústria de quadrinhos não só da Argentina, mas de toda a América Latina. Escrita por Héctor Oesterheld e ilustrada por Francisco Solano López, O Eternauta acompanha seu protagonista Juan Salvo junto de seus amigos e familiares, tentando sobreviver a uma misteriosa e mortal nevasca que começara a cair de repente sobre Buenos Aires, matando instantaneamente a todos em que toca. Ao passo que nossas personagens sobrevivem e resistem a este movimento que revela-se como uma possível invasão, passam a presenciar fenômenos cada vez mais estranhos, como criaturas alienígenas, controle psíquico, viagens no tempo e eventos que indicam a presença de forças muito maiores do que se poderia presumir. Sinopse

Para além de sua linguagem de Sci-fi 50tista que envolve uma série de elementos de quadrinhos de guerra e ficção científica que lhe eram contemporâneos, em seu subtexto, O Eternauta relaciona-se (como não poderia ser diferente) com o contexto histórico de seu país que havia recém passado por um golpe ditatorial que embora no momento de sua publicação, já tivesse arrefecido para a democracia, deixara feridas profundas nos cidadãos argentinos (feridas estas que seriam reabertas nos sucessivos golpes militares sofridos pelo país nos anos seguintes, sendo estes ainda mais duros).

O Eternauta, ao longo de sua construção, revela-se para além de uma primeira impressão, como uma história que rompe com o paradigma do herói individual, tão comum ao imaginário das histórias estadunidenses, e constrói para si, o herói coletivo, composto aqui, pelo grupo de sobreviventes, que mesmo diante das adversidades que muitas vezes parecem possuir um tom fatalista e incontornável, resistem em prol do coletivo e priorizam o mutualismo em detrimento dos interesses e caprichos individuais.

Em suma, Oesterheld e Lopez, constroem uma história tipicamente latino americana, sobre traumas coletivos, invasões, espoliações e apropriações, mas que mesmo contudo, a partir da força de seu povo, preserva uma vida que merece ser vida, rimando com outras obras latinas como o grandioso Cem Anos de Solidão de Gabo, e outras narrativas de Borges, Cortázar e etc.

Infelizmente, devido a seu caráter militante e suas ideias políticas revolucionárias, Oesterheld (e suas filhas), enquanto escrevia a segunda parte de O Eternauta, história essa com uma conotação política muito mais contundente e clara do que sua história original, tendo contornos de luta armada, foram vítimas, dentre tantas outras, da sanguinária ditadura militar argentina, responsável por seu desaparecimento não esclarecido completamente até hoje.

Entretanto, apesar das sucessivas tentativas de apagar sua memória, Oesterheld continua sendo lido até hoje, não só por O Eternauta, mas também por obras consagradas como Mort Cinder. Oesterheld pode ter morrido como homem, mas suas ideias e suas histórias, tal como Juan Salvo, nosso Eternauta herói coletivo, resistem até hoje.

Em memória de Oesterheld (1919 — ?)
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