Se em uma primeira impressão, Cronenberg ameaça direcionar seu filme a uma crítica (que seria no mínimo cínica vinda de um artista reconhecido por sua proximidade com a escatologia e sobretudo com o body horror) moralista e até mesmo de senso comum, aos perigos do audiovisual e da televisão para o público a partir de seu caráter alienável e fetichista, principalment, indo em direção a violência física e a pornografia. Mas se estamos falando de David Cronenberg, seu nome e senso comum não cabem na mesma frase e ao longo de sua rodagem, o diretor toma outra vereda e a subverte, através da aceitação dessas mídias como parte inalienável e quiçá insepareável, da experiência humana contemporânea em sua condição pós moderna.
Entretanto, isso tampouco o volta a um elogio a esta e ao reconhecer a existência inevitável desse homem ciborgue bio orgânico, meio carne, meio máquina, fruto, da esquizofrenia causada pela guerra de narrativas da qual a mídia, se presta como intermediária, Cronenberg direciona sua crítica a uma classe dominante, ou seja, a aqueles que através do discurso cândido e conservador, se utilizam dessas pautas, de forma a se apropriarem das técnicas, ou seja, dos meios que o audiovisual proporciona, a fim de satisfazerem seus próprios interesses e produzirem seus próprios simulacros.
O homem contemporâneo é um homem da mídia, um ciborgue de Donna Haraway, que cria pensa e deseja conectado ao cinema, ao rádio, a televisão e afins, em meio a uma parafrenia esquizo da qual dizia Baudrilard, composta por simulações e simulacros.
Mesmo a internet ainda não sendo uma realidade (ao menos não como a conhecemos hoje) no momento em que o filme fora realizado, podemos ampliar suas reflexões, até o momento atual onde nos encontramos mais conectados do que nunca, sendo o celular, praticamente a extensão mecânica representada por uma arma na mão de Woods. A questão que fica, é: o que devemos fazer? Travar uma eterna luta com os galhos ou tentarmos fazer dessa condição, nossa linha de fuga?
